Restaurante CÁ-JÁ (Recife): você é responsável por quem cativa

(30 de janeiro de 2018)

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O quintal da sua casa (ou de alguém que você conhece) é animado?

Pois o quintal do novíssimo Restaurante Cá-Já é pra lá de animado e vibrante, mas tem um quê assim, de um “entre e fique à vontade”, porque “nós estamos aqui para te dar conforto, amor, abraço, comida incrível, sensibilidade e todo o carinho de um verdadeiro lar”! O ambiente está impregnado de uma verve apaixonante, que cativa e causa um envolvimento. Coisa perceptível desde o primeiro momento em que se adentra.

Dizem que as coisas simples são as melhores. Aqui, a simplicidade é nobre! Nobre, sem esnobismo ou afetações! Porém, com luxo no sublime! É de casa, mas é diferente, tem intervenções (de dois arquitetos feras Rodrigo Malvim e Alysson Albuquerque) na casa dos anos 50, que fazem ser mais do que um simples restaurante. E conduziria à experiência que se se anunciava. Há lugares que falam simplesmente por serem. Este é um deles.

 

É daqueles lugares que a primeira impressão é a que fica!

Aliás, primeiras impressões advindas da delicadeza das fotos publicadas na rede social da casa. Acenderam o alerta da necessidade urgente de ir conhecer esse lugar. A sensibilidade de quem as capturou consegue expressar mais que simples imagens. Transpõem-se a tela e anunciam que ali há algo de especial e que merece ser descoberto. Meu faro gastronômico forneceu a intuição necessária de que havia algo mais a ser falado, comunicado, experimentado, de que havia uma experiência a ser descoberta…

Experiência que parte da atribuição de um nome próprio à hospitalidade. Ela pressupõe generosidade e está impregnada no ar, na alma doce e cativante que Alan Machado (irmão do chef) fez imprimir… Desde a recepção como se um velho e bom amigo fosse, recebendo com um sorriso, aos mimos de entregar chapéu, “dudu” (nosso picolé de saquinho), leques…  Fruto de sua formação em hotelaria e passagem por hoteis no mundo inteiro (rede Marriot e, em Recife, pelo Nannai Resort etc). Argumentos nos detalhes sutis, acolhimento, tudo pensado a partir do outro e para o outro, no caso, para nós, comensais! Reflete-se, por consequência, na comensalidade!

E se você chega nesse lugar em que, não só o ambiente impacta, mas os aromas suspensos no ar também envolvem, seduzem e comunicam mais do que se vê? É porque há silêncios que falam. O dos aromas, aqui, comunicam muito! E, conjugados com todo o conjunto da obra, produzem uma comunicação interativa, responsável por fazer-nos conectar, ainda que intuitivamente, com a comida e com a aura do lugar.

É nesta condição que impressões são constatadas de forma decisiva na comida. Permitem uma lógica imposta pela inscrição do sabor nas nossas memórias.

O ponto de partida foi uma saladinha de polvo, de inspiração peruana, bem refrescante, com molhinho cítrico.

Os estonteantes bolinhos de siri avisavam que a raiz brasileira estava ali impregnada. Aliás, não só ali, mas ditava a linha mestra da casa: a autenticidade de ingredientes brasileiros, alguns até de baixo custo, porém, elevados à categoria de extração máxima de sabor e sofisticação.

Estava apto a dizer que os mesmos ingredientes, vestidos até dos mesmos temperos, podem transcender as palavras.

O delicioso “Rosbiche” é a versão do rosbife quente em molho frio de ceviche. Traduz-se na afirmação de uma linguagem, cuja cozinha contemporânea é cheia de senso, leve, vibrante, moderna, criativa e exala alegria.

Aliás, o tradicional ceviche de peixe possui mesmo selo de autenticidade e nenhum debito é imputado aos legítimos peruanos.

Na sequência dos principais, o “Espetinho de Coração de Boi” bateu forte!!! Faz a pessoa sair do eixo! Para encará-lo, tive que me despir do preconceito, o que foi convalidado pelo sabor estonteante! O melhor prato do cardápio revela a autoridade de uma cozinha escrita com muitas exclamações!

A “Kofta de Bode” também traz um fluxo contínuo de muitas interjeições. Um prazer de comer irrefutável!

A “Picanha com Macaxa” (macaxeira) faz dois tão corriqueiros ingredientes brasileiros se vestirem de gala, com ditos sofisticados até! Legumes precisa e delicadamente salteados (e orgânicos) dão o tom do contraponto!

Há uma personalidade própria, com doses de sensualidade, na cozinha do chef Yuri Machado, composta e decomposta pelas suas andanças no mundo. Inquieto, ávido por aprender além de fronteiras, desde a faculdade, já se mandava para o Peru nas férias. Lá, sob a alçada do chef Rafael (um dos mais famosos e abalizados do país – The World’s 50 Best Restaurants) aprendeu, apreendeu e recebeu as luzes que um verdadeiro mentor é capaz de inspirar. Paralelamente, quando aqui por Recife, esteve no Thaal (Recife, do chef Thiago Freitas). Em São Paulo, no DOM, de Alex Atala. Formado em gastronomia (UFRPE), ganhou o mundo com a trupe Cirque Du Soleil, onde cozinhava para os artistas. Estes, tratados pela companhia, como estrelas, inclusive no que era servido na cozinha, o que refletiu ainda mais no acervo do chef. Daí, a trajetória foi ascendente e, já em Nova Iorque, vieram as passagens pelos aclamados e famosos Glasserrie (Bib Gourmand Michelin), The Finch (uma estrela Michelin – Chef Gabe McMackin), Cosme (nº 40, do The World’s 50 Best Restaurants, do premiado, famoso e incontestável chef do Pujol, o mexicano Enrique Olvera). Ou seja, só os restaurantes do momento, na Big Apple, tanto no quesito crítica gastronômica, cozinha de peso, prêmios de relevo, como em termos de badalação!

Por isso, estamos lidando aqui com gente que tem conhecimento de causa, técnica, experiência, maturidade, estrada de peso. É uma novidade mais blockbuster do que se pode dar conta. Motivo de sobra para todo meu entusiasmo, para comemorar, para realçar, fazer ressoar e dar mais que o merecido destaque!… Em qualquer lugar do mundo, gente com esse curriculum é colocado no olimpo da gastronomia… É motivo, inclusive, para a imprensa nacional voltar seus olhos para essas bandas… Aliás,  para a gente se orgulhar com a chegada por aqui desse jovem e talentoso chef, cuja estrela começou a brilhar há muito! E esperar os efeitos ecoarem aqui em Recife… Vai chover confete na horta desse chef!

Irrefutável concluir que há uma trindade (oni)presente, subscrita pelo chef Yuri, seu irmão Alan, completada no outro vértice da sociedade por Marina Moneta, também com formação em hotelaria e que cuida da gestão.

Para ficar mais que perfeito, ainda é preciso realçar a pegada orgânica da casa. Se não é possível que a casa seja 100% de insumos orgânicos ante a dificuldade de consegui-los, o chef se esforça para que boa parte dos vegetais o sejam. Adepta que sou da alimentação orgânica, elevou-se ainda mais o conceito da casa!

Em pouco menos de um mês de funcionamento, estive duas vezes. Preciso voltar para conhecer o cardápio do almoço, diferente do jantar. Aliás, voltarei muitas vezes.

Os bolinhos de chuva servidos ao final, com doce de leite de cabra sedoso, potente, feito na casa, são a expressão do dito de  Brillat-Savarin, quando atesta que “o prazer da mesa é a sensação refletida que nasce das diversas circunstâncias de fatos, lugares, coisas e personagens que acompanham a refeição.” Máxima desde o primeiro momento no restaurante!

Se a sabedoria do “Pequeno Príncipe” afiança que você é responsável por quem cativa, a responsabilidade desses meninos já começou elevada!

É um quintal para chamar de nosso.

Vem pra cá, já!

 

PREÇOS: Bolinho de siri 26,70; Picanha 37,90; coração de boi36,90; kofta 41,90; ceviche 27,70; Rosbiche 30,70; saldinha de polvo 32,70; bolinho de chuva, 15,40.

 

 

CÁ-JÁ RESTAURANTE

Endereço: rua Carneiro Vilela, 648, Aflitos

Funcionamento: Almoço – quinta a domingo, das 12h às 15h; Jantar – terça a sábado, das 19h às 23h
Capacidade: 60 lugares

Informações: 3126.0648

Instagram: @vempracaja

NÃO ACEITA RESERVA

 

 

 

 

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